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O Ladrão da Privacidade Alheia

por Fernando Zocca, em 22.10.12

 

 

O que faz uma pessoa pedir elogios a todo momento? Só pode ser a certeza de que alguma coisa, dentro dela, não está nos conformes.

 

Os panegíricos seriam compensações para aquela sensação de que algo não está nos parâmetros usuais.

 

O elogiador procuraria, com seus adjetivos, "tapar o sol com a peneira" e talvez achasse que, repetindo as tais mentiras, as tornariam verdadeiras.

 

Olha, não seria exagero afirmar que, aquele que gaba, a torto e a direito, visaria mudar a realidade bastante desconfortável.

 

É claro que pode haver doses e doses de compaixão a inspirar toda a falácia sobre o objeto exaltado. Veja que não deixa de ser bem triste a verdade presenciada diariamente.

 

Para muitos, o elogiador não passaria mesmo de um enganador, que buscaria, com seus enganos, minimizar frustrações próprias.

 

Note que é atribuindo realidades falsas, aos objetos ruins, que o vendedor transfere seu estoque.  A chamada propaganda enganosa tem muito disso.

 

Os vendedores de gatos por lebres são mestres nessa técnica. O problema aparece quando, para sustentar as mentiras passadas, cometem outras e outras, cada vez mais insólitas.

 

Chega então o momento em que o enganador, para manter todo aquele castelo de cartas, por ele construído, precisa cometer crimes. Daí surgem as violações, os furtos, as invasões de privacidade.

 

E corrói o criminoso, as estruturas familiares, as almas ingênuas, os negócios prósperos e os governos corruptos.

 

O invasor da privacidade alheia assemelha-se ao vírus da doença mortal que se aloja no corpo são. Em pouco tempo ele destrói a sanidade das vítimas.

 

E acumula bens o ladrão da privacidade alheia. Entretanto uma coisa é certa, inegável: o invasor da intimidade alheia não deixa de fazer parte de uma triste realidade assimétrica.

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publicado às 13:23

O Sumiço da Roda

por Fernando Zocca, em 01.09.12


 

Na manhã de terça-feira Janaína sentiu a necessidade de caminhar um pouco a fim de arejar as ideias, e livrar-se do incomodo que lhe dava o tédio.

Ela então, resolvendo sair sozinha, embarcou no Sandero GT Line vermelho e, com muita atenção ao trânsito, dirigiu-se ao Shopping que sempre lhe garantia bons momentos de satisfação.

Sentindo que seu carro estaria bem protegido, no estacionamento imenso, daquele novo centro comercial, ela bem à vontade, pôs-se a caminhar sobre o piso reluzente, ornado com figuras de traços finos.

Janaína andava lentamente, desfrutando o prazer que sentia ao observar as vitrines das lojas, especialmente preparadas para atrair e satisfazer os consumidores.  

No final de uma caminhada longa ela entrou numa loja e, com o senso estético bastante apurado, comprou três blusas e duas calças jeans.

Ao sair a jovem encontrou-se com a velha e querida amiga Marie de Lurdes a moça alta, loura, cabelos cacheados, que trajava, naquele momento, um vestido verde leve, com alças estreitas e decote generoso.

- Vi você na praia ontem. Eu te chamei, gritei seu nome, mas você não me ouviu. – Disse Marie beijando a amiga.

- E por que não foi falar comigo?

- Estava com pressa. Tinha hora marcada com o advogado. Você sabe não é? Eu me separei do Gaby.

- Eu não sabia. Não deu mesmo pra segurar a onda? – interessou-se Janaina ajeitando as sacolas que trazia na mão.

- Não. O cara ficava cada dia mais violento. As crianças não podiam nem brincar que ele agredia todo mundo. Estava cada vez mais louco. – Marie ao falar sentiu seu rosto avermelhar-se.

- É verdade mesmo que Gaby tem problemas neurológicos? – quis saber Janaina.

- Você sabe não é? O pai dele já não era flor que se cheirasse. Tinha uma genética ruim e ainda por cima não parava com o uísque. Eu pedia, a toda hora, que ele deixasse o maldito vício, mas não tinha jeito.

- Ele não combinava com o Marcelo, seu filho mais velho? – Indagou Janaina.

- Você sabe que o Marcelo é enteado do Gaby, não é? O pai do Marcelo é o Messias, aquele frouxo que não serve nem pra pagar a pensão alimentícia em dia.

- Eu sei. Sei também que eles nunca se deram bem. O Gaby odeia o Marcelo. Mas é verdade que agora estavam se espancando?

- Sim. É verdade. – confirmou Marie. – Não sabia mais o que fazer ou a quem recorrer até que me orientaram a procurar um advogado e foi o que fiz. O Gaby não queria a separação. Mas eu sai de casa e fui morar com a minha mãe. Enquanto isso o doutor fez um processo litigioso. Saímos da audiência lá do Fórum separados.

- Desejo boa sorte pra você Marie. Tomara que agora você encontre alguém que te faça feliz. – disse Janaina afetuosamente beijando a amiga.

- Tudo de bom pra você também, amiga. Acho que agora teremos paz. – Marie sentiu um aperto esquisito no peito e lágrimas escorreram-lhe pela face.

Segurando com firmeza suas sacolas Janaina caminhou durante alguns minutos entrando na área do estacionamento; ao aproximar-se do seu carro notou que a roda traseira direita fora furtada.

Muito Indignada ela ligou para o marido, contando o acontecido.

-         Não saia dai. Estou chegando daqui a pouco. – Vociferou Perez ao telefone.

Perez chegou depois de uma hora encontrou-se com a esposa, e foram conduzidos, por um dos seguranças do estacionamento, á presença do gerente que se negava a reconhecer a responsabilidade pelo furto bem como a obrigação de indenizar o cliente.

Enquanto discutiam Janaina esperava ansiosa e cansada.

-         Sinto muito seu Perez, mas não podemos pagar por uma coisa que não fizemos. Temos avisos por toda a área do estacionamento informando que não nos responsabilizamos por furtos ou danos que possam ocorrer nos carros.

-         Bastante estressado Perez resolveu discutir o problema no judiciário. Chamando Janaina eles iniciaram a caminhada até onde parara seu carro.

-         Vou chamar o guincho pra levar o seu, Janaina. – disse Perez acionando o celular.

Satisfeito por se ver livre momentaneamente do problema, o gerente horrorizou-se ao perceber que um odor fortíssimo de gás emanava das aberturas e frestas do chão do corredor todo, onde se localizava a gerência.

Enquanto corria desesperadamente pelos corredores do shopping, agitando os braços acima da cabeça, o gerente esgoelava:

-         Seu Perez, dona Janaina, pelo amor de Deus. Vamos resolver logo esse assunto. Ligo agora mesmo para a concessionária mandando vir a roda que sumiu.

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publicado às 18:32

A Rotina da Cidade

por Fernando Zocca, em 05.06.12

 

 

Cena 01/interior/dia

Fechado dentro do seu gabinete, na câmara municipal, o vereador presidente da casa está nervoso. Aflito ele olha pro filho que espera dele uma solução.

Vereador:

- Noi precisamo fazê arguma coisa. Assim não dá mais. Assim não pode.

Filho:

- O que noi vai fazê pai?

Vereador:

- Tá sujeira. Negadinha já tá sabendo que noi robamo os notebook e parte do dinheiro da merenda escolar.

Filho:

- Mas e dai? O que noi vai fazê?

Vereador:

- Vamo fazê uma simpatia.

Filho:

- Como assim, pai?

Vereador:

- É. A coisa tá suja. Noi precisa limpa tudo. Noi precisa de muito sabão e detergente. Vamo fazê o seguinte: hoje à noite noi vai alivià a fábrica de sabão do João Mané. Noi vai carrega o que for possível e depois noi vende esse produto lá em Minas. Quem sabe dá certo.

Filho:

- Será, pai?

Vereador:

- É craro. Convide seu irmão e seu primo pra noi fazê o serviço hoje a noite. Falô?

Filho:

- Falô, pai.

 

Cena 02/interior/noite

O vereador, seus dois filhos e um sobrinho, colocam caixas de detergente e sabão dentro de um carrinho de mão, que pretendem levar pra caminhonete, estacionada nas sombras do estacionamento interno da fábrica.

Vereador:

- Vamo rápido, molecada. Chega de sujeira.

O filho:

- Num sei não, pai. Acho que vai melar.

Vereador:

- Melar nada. Roubar todo mundo rouba.

O sobrinho:

- Tio, acho que o caldo vai engrossar. Parou um carro ali fora. Deve ser os home.

Vereador:

- Será?

 

Cena 03/exterior/noite

Dois agentes da Guarda Municipal saem da viatura apontando suas armas.

Guarda Municipal:

- Estejam todo mundo presos.

Filho:

- Eu num falei, pai?

Vereador falando baixo:

- Que nada. Eles aceita um mimo.

Guarda:

- Negativo inoperante. Conosco ninguém podosco. Vai todo mundo em cana.

Chega mais uma viatura da polícia. Os guardas algemam e colocam os presos dentro do camburão.

 

Cena 04/Exterior/dia

Um grupo de homens reunidos na praça comentam as últimas notícias sobre a prisão do presidente da Câmara Municipal.

Velho de cabelos brancos:

- Mas que vergonha! A gente votamos nesses caras e olha aí no que dá. Tá vendo só?

Velho de cabelos pretos, paletó e um jornal na mão:

- Esse assunto não compete a nós. Isso é coisa de armação política. Eles que se entendam. A gente não tem nada com isso.

Silêncio geral. O grupo se dispersa. No rádio a notícia de que o juiz concedeu o alvará de soltura para os presos, traz de volta a rotina da cidade.

 

Zoom da câmera no relógio da matriz que faz soar as doze badaladas do meio-dia.

 

Fim.  

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publicado às 13:38






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