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O Calendário

por Fernando Zocca, em 10.11.12

 

 

Van Grogue caminhava devagar, com a cabeça baixa, os braços imóveis, praticamente colados aos lados do corpo e, quando chegou defronte ao bar A Tijolada, depois de ter desviado de vários buracos, tropeçou num paralelepípedo deixado bem no meio da calçada.

Bafão, dentro do boteco, tendo passado o guardanapo sobre o tampo do balcão, tirou duma gaveta o calendário e, revendo as datas murmurava:

-         Natal... Carnaval...Humm... Feriado...Show da GaGa...

Van aproximou-se do proprietário do botequim mais famoso de Tupinambicas das Linhas e, com o dedo indicador da mão direita ereto, na altura da orelha, disse com voz desafinada:

-         Preciso fazer exercícios físicos!

Dina Mitt, Edbar Bante e Virgulão sentados á mesa do canto, longe da janela, riram muito, mas logo se assustaram com as expressões fisionômicas do Van que parecia sofrer um surto epiléptico. Ele passava as mãos com muita força sobre o rosto como se quisesse limpá-lo.

-         O que é isso Van? Vai morrer? Que ódio é esse? – perguntou Dina assustada.

-         Vai ter um troço? O que é que há colega? – exclamou Bante - levantando-se da cadeira indo na direção do companheiro.

Virgulão demonstrando bastante calma pegou, com extrema delicadeza, o seu copo e, fazendo pose, tranquilizou a moçada:

-         Nada! Pode parar! Isso é fita, encenação. Ele não pode ver um calendário que tem faniquitos. É frescura pura.

-         Delícia. – comentou aliviada a Dina, abocanhando em seguida, uma rodela de salame espetada num palito.

-         É verdade Van? Você não pode nem ouvir falar em calendário que fica derreado? – quis saber Edbar Bante. – Conta essa história pra gente.

Van fixou seus olhos nos do Bafão, e lhe fazendo um gesto que o induzia a servir-lhe a pinga, acompanhada daquela cerveja geladíssima, pôs-se a contar:

-         É o seguinte... Eu trabalhava na prefeitura naquele tempo e o caquético testudo não concedia aumento pros funcionários de jeito nenhum. Fazia uma ¨cara¨ que a gente estava necessitado; então eu e mais alguns colegas fundamos um sindicato guerreiro e por intermédio dele começamos a fazer pressão sobre o Jarbas. Chegou um momento em que o prefeito precisava do apoio do presidente da câmara municipal pra aprovar a lei que dava o nosso aumento e coisa e tal. Então o prefeito careca e magricelo nos mandou falar com o presidente do legislativo. Acontece que o Fuinho Bigodudo, afinadíssimo com a política do Jarbas, seu padrinho, não aceitava nem ao menos falar com a gente. Ele não respondia quando lhe dirigíamos a palavra, Bom... Começamos uma campanha de protestos exatamente no dia em que haveria a primeira sessão, depois da aprovação do aumento de 100% dos salários dos vereadores. Nosso grupo apitava, vaiava e exibia cartazes durante a sessão. Foi um bafafá do inferno. Bem... Chegou uma hora em que o Fuinho, bastante nervoso, mandou a tropa de choque dele sobre os manifestantes prendendo e arrebentando quase todo mundo. Os paus-mandados do Fuinho me levaram para o porão da Câmara Municipal e me amarraram numa cadeira. Puseram uma venda nos meus olhos, uma fita adesiva na minha boca, e me desceram o cacete, me bateram sem dó nem piedade. Eu imaginava que esse tipo de comportamento só existisse no tempo da ditadura militar. Mas não, os caras queriam acabar comigo. Depois de duas horas seguidas de maldades, os capangas tiraram a venda dos meus olhos e com um tapão no meu rosto disseram que o Fuinho viria falar comigo. Naquela altura do campeonato eu, que me cagara e mijara todo, já não tinha mais a noção de nada. Mas lá veio o feitor que se aproximava altivo, com aquela boquinha de chupar ovo, os passos lentos, firmes como se marchasse. Ele tinha os braços às costas e ao se achegar de mim abaixou seu rosto para bem perto do meu. Arreganhando os dentes, assim como um rottwailer faz ao rosnar diante duma presa ele me perguntou: ¨Então você quer aumento é?¨ O Fuinho caminhava em volta da cadeira onde eu estava amarrado e, batendo na coxa direita com um cilindro de papel, semelhante a esses que se faz com jornais, de momentos em momentos, parava na minha frente e me espancava no rosto com o rolo. Já pensou? Então depois de muito rodear e me bater ele parou. Abriu o cilindro de papel e disse: ¨Você consegue ver esse calendário? Olhe!¨ Com um gesto de cabeça eu disse que sim. Então ele continuou: ¨Janeiro... Fevereiro, Março...¨ Dizendo isso ele me bateu com mais força na cabeça. Então ele mandou que trouxessem uma garrafa de pinga. Abriram a minha boca e usando uma baioneta, que colocaram atravessada, na altura dos meus dentes do siso, mantiveram meus maxilares afastados. Foi quando então despejaram a pinga na minha goela. Depois daquilo eu só me recordo de ter acordado vários dias depois, no acostamento de uma estrada movimentadíssima. Eu estava um trapo. Quase tinha sido atropelado por aqueles carros, motos, ônibus e caminhões que passavam aceleradíssimos por mim. Quem me via pensava que eu fosse um morador de rua, um indigente.

-         Nossa Van... Ai que dó. Ai que pena. Coitadinho... Que loucura! – exclamou assustadíssima a Dina Mitt.

-         Pois é. Os caras quase me mataram. Depois me disseram que eu fiquei mais de 55 horas andando a esmo pela estrada. Dei 19 tropeções que me arrebentaram os sapatos. – confirmou Grogue.

-         Sim, mas vamos agora esquecer isso tudo e comemorar muito. Afinal meu querido Van de Oliveira você está vivo e saudável. – conclamou Bafão batendo palmas.

-         Pois foi isso mesmo o que aconteceu. Desconfio que os malucos querem que eu me mande de Tupinambicas das Linhas. Querem que eu vá embora da cidade. Mas não posso ir pra qualquer lugar onde não me tenham convidado. Ninguém em sã consciência deixa alguém entrar, onde quer que seja, se não tiver um convite. Não é?

-         É verdade Van. Não saia da cidade se não tiver um emprego certo e garantido. – disseram em uníssono os amigos que brindavam a decisão.



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publicado às 02:13



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