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Recordações

por Fernando Zocca, em 26.01.13

 

 

 

Lendo hoje o Jornal de Piracicaba, encontrei exatamente no caderno Agito e Gourmet, uma crônica do escritor, compositor e servidor público Caio Silveira Ramos.

 

Caio mora em São Paulo desde 1989, mas nasceu em Piracicaba. É filho do conceituadíssimo professor Argemiro Coelho Ramos e da também professora Jandyra Silveira Ramos.

 

A crômica Algemirando (I) do Caio inspirou-me a escrever algumas lembranças daquele tempo tão bom em que, minha família e eu, passamos boa parte das nossas vidas, num casarão antigo, situado na movimentadíssima região central de Piracicaba.

 

Meus filhos Gustavo, Guilherme, Nice e eu, fomos vizinhos do professor Argemiro, da queridíssima Jandyra e seus filhos, quando morávamos e tínhamos escritório de advocacia à Rua Morais Barros durante a década de 1980.

 

Eu mantinha a banca, onde atendia clientes, elaborava as peças processuais, lia jornais e ouvia rádio, na sala da frente da casa. Era equipadíssimo o escritório; entretanto o estado de conservação do quintal não deixava de ser um caracterizador da vergonhosa omissão.

 

Eu não cuidava daquele trecho, e Nice, apesar de se desdobrar na higienização da casa, no cuidado com os meninos, na alimentação e tudo o mais, também não podia fazer nada, com aquela espécie de "selva amazônica" particular.

 

Numa ocasião o professor Argemiro, conversando com Nice e os meninos, propôs-lhes a feitura de um campinho de futebol no local.

 

A molecada vibrou com a ideia, Nice ficou na expectativa e eu, quando me falaram, não opus embargo.

 

Então o saudoso professor, usando habilmente uma escada apareceu e, transpondo corajosamente o muro, pôs-se a erradicar a erva daninha, aplainando depois o terreno.

 

Em seguida, usando meia dúzia de sarrafos, ele construiu as traves dando por encerrado, para a alegria incontida dos pimpolhos, os trabalhos daquela espécie de "Itaquerão" do centro.

 

Gustavo e Guilherme, hoje na faixa dos 30 anos, lembram-se com muita alegria, dos momentos em que passavam horas e horas na casa dos professores Argemiro e Jandyra conversando, ouvindo histórias e aprendendo a jogar xadrez.

 

Na crônica Argemirando (I) o Caio pede para quem souber de histórias ou tiver lembranças de passagens com o pai, que lhe escreva. Mas eu, quando li a matéria, não pude me conter, e tracei logo esta que publico em seguida. 

 

Quero parabenizar o Caio que é também autor da biografia Sambexplícito. As vidas desvairadas de Germano Mathias, lançado no Sesc de Piracicaba em 2008.

 

 

25/01/13

 

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publicado às 09:36

É hora de trabalhar

por Fernando Zocca, em 18.08.10

                 Durante a caminhada não é incomum suportarmos reveses desconcertantes. Mas ao invés de nos encharcamos com as lamentações murmurantes, o mais salutar é sair à luz, buscando melhores circunstâncias.

 

       A procura por soluções denotaria o reconhecimento de que as nossas atitudes não são as mais corretas e que, portanto, precisamos mudar o modo de reagir aos problemas diários.

 

       As transformações ocorrem com tamanha velocidade, nesse princípio de século 21, que urge revermos os velhos costumes atadores a situações estagnadas, improdutivas.

 

       Quem falaria em Internet há alguns anos passados? Quem diria ser possível, às mulheres, concorrer nas eleições, para a presidência da República? Não chamariam “louco” o cara que ousasse dizer ser real a possibilidade de um negro tornar-se presidente dos Estados Unidos?

 

       No entanto isso tudo está ocorrendo. Os hábitos antigos, costumes do século precedente, não teriam tanto peso na solução dos problemas atuais.

 

       Então ao contrário de permanecermos imóveis, improdutivos, descontentes, irados e sem bom senso, seria benigno que nos dedicássemos a aprender a fazer algo útil aos nossos semelhantes mais próximos.

 

       O nhenhenhém não dá camisa a ninguém. Só o gogó não resolve a problemática familiar angustiante. Carecemos de ações, de obras em prol do próximo.

 

       É chegada a hora de arrumar um bom serviço e trabalhar. A criançada agradece.

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publicado às 14:20

O ESPELHO

por Fernando Zocca, em 10.07.10

Quando Van Grogue passava da conta nas biritagens, confundia tudo, como todo mundo sabe. Mas o baralhameto que fazia naquele julho já distante, causava desgosto intolerável em quem esperava dele um pouco mais de sensatez.

 

Van estava num estágio que misturava essa manta com Samanta e, sem chance com seu Sanches; temeroso que os crimes incendiários do PCC fizessem vítimas entre os usuários das marinetes de Tupinambicas das Linhas, só andava a pé.

 

Mas durante as caminhadas ele se lembrava pesaroso do tempo em que tinha carro. Recordava-se do velho Corcel II desmilinguido, descorado, manchado e sem o gradil protetor do radiador, evocativo duma face banguela.

 

Grogue sempre foi um motorista impetuoso. Antes de sair, penetrava com vigor a chave naquele receptáculo frágil, girando com energia o instrumento. Depois que se sentava e, sentindo-se dono da situação, batia com força a porta do corredor.

 

Ele sabia que pra lhe dar sorte tinha que socar a peça no mínimo umas três vezes. Acelerava ao máximo o motor vetusto e disparava a buzina duas vezes antes da arrancada. "Era fogo na caixa d água!" sentenciara certa vez sua mãe barriguda.

 

Quando Grogue se penteava pela manhã naquele espelho quadrado do armário do banheiro, nunca supunha estar sendo vigiado por algum olho oculto.

 

Mas num belo dia percebeu que as notas que tomava nos velhos papeis guardados vinham sendo manifestadas por agentes da seita maligna do pavão-bem-louco.

 

Eram feedbacks negativos com os quais Van julgava quererem, os membros da seita impiedosa, impedi-lo de se manifestar.

 

Ora, Grogue podia ser tudo, menos estuprador e autista. Por isso sua expressão não poderia ser barrada nem mesmo sob o impacto duma cacetada no lado esquerdo do cocuruto.

 

Sem insulto à velha área do tio Broca, inexistiam motivos para impedimento justo; mesmo que o corte no couro cabeludo tivesse de ser costurado com dois ou três pontos.

 

Van Grogue realmente, quando o frio aumentava e tudo nele se contraia, ficava sujeito às lembranças do tempo em que sua velha e fofa mãe botava os três irmãos pra tomarem banhos juntos. Eram banhos coletivos e naquela situação em que todos se viam tal qual Adão e Eva no paraíso, a libido se manifestava.

 

Como o Grogue era mais velho, mandava sempre os mais novos pegarem o sabonete por ele, às escondidas, lançado ao solo. Essas atitudes feriram a suscetibilidade do Vermelho, um dos novos e fez dele um inimigo secreto do pobre Grogue.

 

Mas naquele julho Grogue extrapolara os limites viajando na batatinha e na maionese vencida. O infeliz misturava gaze com gás, gás com gasolina e Bahia com baia. Podia uma coisa dessas? "Ah... Capone vê se te emenda!" teria gritado uma vizinha já de saco cheio com os procedimentos ingênuos dele.

 

Grogue tinha consciência que as atitudes impeditivas da expressão do seu pensamento eram iguais a repulsa e negação do seu comportamento lá no banheiro. Tudo que vinha do Grogue suscitava aversão semelhante àquela havida durante os primeiros folguedos infantis debaixo das águas tépidas e vaporosas do chuveiro elétrico.

 

Ao entrar no boteco da tia Lucy Nada, Van encontrou a esperá-lo o Giam D. Bruce, Noecir Ponteiro e Narcíseo M. Artelo. O trio queria sacar-lhe o couro à semelhança do que faziam os caçadores aos jacarés, sapos e cobras.

 

Após deglutir a “dindinha” perguntou aos boquiabertos espectadores: "O que foi? Nunca viram não? Ao invés de cercar, não seria melhor me arrumar um emprego, um serviço?"

 

Depois de pagar o consumido Grogue saiu do boteco com uma idéia fixa na cabeça: tinha que saber tudo sobre a tal da morfologia flexional. Esse, daquele dia em diante, seria o canal.

 

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publicado às 12:36